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A Luz da Viagem

Gonçalo Cadilhe

1 a 31 Março 2018

A Luz da Viagem 2018-09-25T09:37:48+00:00

Project Description

O que significa para mim fotografar? Duas décadas depois de ter começado a ilustrar os meus textos com imagens dos lugares que esses textos descreviam, ainda hoje sou obrigado a combater a relutância e a inércia mental de pegar na máquina, sair para a rua e ir tirar fotografias. Acima de tudo, continuo ainda hoje a procurar uma identidade própria, uma perspectiva aparte, um olhar de fotógrafo que justifique as imagens por si só e que fuja desse beco sem saída que é um portfolio tomado de empréstimo à escrita. Ainda hoje procuro como contrariar o vício fácil de regressar com imagens que são apenas um prolongamento do que escrevi.

(…) Agora, no quarto da pensão de Dali congratulava-me pelo trabalho da manhã. As imagens estavam boas. Não era exactamente mérito meu, mas sim da luz. Todas essas imagens tinham uma qualidade em comum: estavam iluminadas. Tinham ainda uma outra qualidade em comum: eram autónomas. Não dependiam do meu juízo de escritor viajante. Revelavam apenas que alguma coisa chamara a atenção do autor daquelas imagens quando as captara. Por isso as captara. Essa coisa era a capacidade da luz criar beleza no mundo.

Talvez pela altitude ou pelo excesso de chá verde, sentia uma acutilância na análise da minha relação com a fotografia que me permitia clarificar o que me interessava como objecto fotográfico, e qual a direcção natural do meu olhar. Por outras palavras, percebia finalmente o que me interessava fotografar. As minhas fotografias procuravam armazenar momentos cuja qualidade visual fosse tão metafísica que permitisse mantê-los congelados no tempo por uma lente e ser reproduzíveis num ponto qualquer do futuro. Aqueles lugares talvez quase nunca fossem belos mas no instante em que eu estivera lá, neles, tinham encenado o melhor de si próprios.

Nesse sentido, a minha máquina era uma gala que celebrava a feliz coincidência entre um lugar onde eu estivera e a ocasião em que a luz transcendera esse lugar. Dentro da minha máquina, no palco dessa gala, desfilavam, um após outro, os testemunhos luminosos e ornamentados de um planeta aparentemente imaculado — um planeta que, tal como um tirano preocupado com a imagem internacional do seu feudo, relegava toda a violência, miséria e fealdade para uma zona de escuridão e censura. A minha postura não era conivente mas sim ofuscada: um viajante cujas fotografias nada mais revelavam, e nada mais recordavam, do que apenas a beleza iluminada da sua viagem.

O que me interessava fotografar era a minha própria felicidade, feita de luz e pureza sobre a paisagem. Cada fotografia minha era um lugar dentro de mim.

 Gonçalo Cadilhe
 (in “Um Lugar Dentro de Nós”, Clube do Autor, 2014)

Gonçalo Cadilhe
Nasceu na Figueira da Foz em 1968, onde continua a residir com a mulher e o filho. Começou a escrita e a fotografia de viagens, de uma forma profissional, em 1992.
Tem quinze livros publicados. Viagens, biografias históricas, surf e encontros de vida são os seus temas de eleição. Entre os vários títulos, destacam-se “Planisfério Pessoal”, onde relata uma volta ao mundo de 19 meses sem recorrer ao transporte aéreo; “Nos Passos de Magalhães”, uma biografia itinerante narrada nos lugares da vida do navegador; “África Acima”, que descreve uma travessia do continente africano desde a Cidade do Cabo até Tânger viajando apenas à boleia ou nos meios de transporte público locais; e ainda “Nos Passos de Santo António” viagem laica onde o autor nos apresenta o santo português como o primeiro grande viajante da História de Portugal.
É autor de vários documentários de viagem para a RTP, entre eles “Nas Ilhas das Especiarias”, aquando dos quinhentos anos da chegada dos Portugueses às Molucas e “Nos Passos de Fernão Mendes Pinto”, onde segue episódios da Peregrinação em vários países asiáticos.
Em 2015, a sua exposição antológica de fotografia de viagem “Um Dia na Terra” esteve presente em várias salas e galerias do país, nomeadamente na cooperativa Árvore, no Porto e no Museu do Oriente, em Lisboa.
Sempre que lhe perguntam qual a viagem de que gostou mais, responde apenas «a próxima!»